AGT Atribui Três Mil Milhões à Empresa Que Ajudou a Fazer o Próprio Concurso – Parte 1

Quando a Administração Geral Tributária (AGT) publicou, a 15 de Novembro de 2023, o concurso de mil milhões de kwanzas para o seu plano de comunicação, uma das futuras concorrentes – a In Pressionante Kianda – já conhecia as peças, tinha proposto alterações aos requisitos e recebera da própria AGT a versão definitiva dois dias antes dos seus rivais. E venceu. Mensagens, minutas e versões sucessivas dos documentos mostram que esta candidata não se limitou a concorrer. Esteve nos bastidores do concurso antes de ele existir para o público.

Cinco meses antes do anúncio da AGT, Carla Marisa Castelo Trindade Martins escreveu aos sócios que estavam “criadas todas as condições para ganharmos o concurso”. A frase consta do relato que ela própria fez de um encontro com o então presidente do Conselho de Administração da AGT, José Vieira Nuno Leiria (na foto principal). O Presidente João Lourenço demonstrou a sua confiança em José Leiria e empossou-o no passado dia 10 de Setembro como membro do seu executivo, no cargo de secretário de Estado para os Assuntos Tributários.

As relações antes do concurso

A In Pressionante Kianda — Prestação de Serviços, Lda. foi constituída em Luanda a 7 de Junho de 2023, com capital social de 100 mil kwanzas. As sociedades portuguesas In Pressionante, Unipessoal, Lda. e In Pressionante 2 Win, Lda., pertencentes a Mário João Zimas Trindade Martins, detinham em conjunto 70 por cento das quotas. Salvador Manuel Pascoal tinha 20 por cento e João António Diogo dos Santos, 10 por cento.

Carla Trindade, esposa de Mário Martins, coordenou a preparação da candidatura. É professora na Universidade Católica Portuguesa, onde dirige cursos de pós-graduação em matérias tributárias. José Leiria realizou o mestrado em Direito Fiscal nessa universidade e foi seu aluno. Estas relações pessoais e profissionais antecederam o concurso.

A professora tem ainda um contrato anual e individual de 370 milhões de kwanzas como consultora da AGT para a instrução de processos de crimes tributários. Este contrato, rubricado a 22 de Junho de 2026 por José Leiria e a contratada, está a ser alvo de uma investigação independente, a publicar também pelo Maka Angola, e envolve o escrutínio da forma suspeita como a cidadã portuguesa obteve, em 2024, a nacionalidade angolana sem nunca ter vivido em Angola e recorrendo ao endereço de residência alheia.

Carla Trindade tornou-se funcionária contratada a tempo integral da In Pressionante Kianda, com a categoria de assessora, a 1 de Janeiro de 2024 e sem visto de trabalho. Obteve o bilhete de identidade angolano a 24 de Abril do mesmo ano.

Em correspondência enviada a entidades tributárias portuguesas a 23 de Junho de 2026, Carla Trindade afirma que também “desempenha funções de consultoria junto do Governo da República de Angola”, usando a sua função na Universidade Católica Portuguesa e o email desta instituição para as actividades de lobista a favor das entidades angolanas.

Carla Trindade

O almoço de “1M”

Segundo a versão que Carla transmitiu por escrito aos sócios, ela e o marido receberam José Leiria na residência do casal, em Lisboa, a 25 de Junho de 2023, entre as 14h00 e as 19h30. Carla classificou o encontro como “muito” positivo e relatou que o PCA da AGT falara de um futuro contrato de comunicação e da possibilidade de contornar dificuldades cambiais através de um consórcio com a sociedade portuguesa do casal.

No fim do encontro, Carla já designava o futuro contrato pela abreviatura “1M” (presumivelmente querendo significar um milhão de euros, cerca de mil milhões de kwanzas). E escreveu: “Estão criadas todas as condições para ganharmos o concurso.” A AGT demoraria quase cinco meses a anunciá-lo.

No dia seguinte, 26 de Junho, Bráulio Assis visitou, segundo outra mensagem de Carla, a residência e as instalações da empresa do casal em Portugal. Bráulio dirigia o Gabinete de Comunicação e Assistência ao Contribuinte da AGT e viria a presidir à Comissão de Avaliação do concurso. Carla resumiu a visita aos sócios: “Hoje o Bráulio Assis esteve cá a alambicar em casa (…) E foi à empresa (…) amou.”

Em 27 de Junho, Carla informou Elisa Leiria, esposa do PCA da AGT, de que a sua admissão na In Pressionante 2 Win (empresa do marido e sócia da In Pressionante Kianda) estava concluída e comunicada à Segurança Social portuguesa. “Dia 1 de Julho de 2023 és oficialmente empregada”, escreveu. Pouco antes, a 3 de Maio, a ministra das Finanças, Vera Daves, concedeu a Elisa Leiria, então técnica superior tributária da AGT, uma licença limitada de seis meses, posteriormente renovada. Em Julho de 2024, a ministra reenquadrou-a na Direcção Nacional do Património do Estado.

As peças circulavam em Setembro

A futura concorrente não esperou pela abertura do procedimento para conhecer as suas regras. A 7 de Setembro de 2023, mais de dois meses antes da publicação do anúncio, Carla enviou a Salvador Pascoal, sócio angolano e seu antigo aluno na Universidade Católica Portuguesa, os termos de referência e o mapa de entregáveis. A 28 de Setembro, voltou a partilhar os documentos, já alterados, e escreveu: “Para teres noção do que podemos ter em mãos.”

dossier examinado pelo Maka Angola reúne mensagens do grupo da empresa, correio electrónico, sucessivas versões das peças, minutas, documentos da Segurança Social e contratos. A documentação mencionada, citada ou utilizada no presente texto foi entregue de forma voluntária, sem qualquer tipo de coacção, incentivo indevido ou expectativa de benefício. A informação foi obtida no âmbito de interacções e conversas interpessoais, em contexto de troca legítima de dados e percepções das partes envolvidas.

De 300 para 15 milhões

A 10 de Outubro de 2023, mais de um mês antes de o concurso ser anunciado, Carla pediu a José Leiria, de acordo com mensagens analisadas pelo Maka Angola, que fosse eliminado ou alterado o Ponto 9 das peças, relativo à capacidade financeira e técnica dos concorrentes.

Na versão inicial, o requisito financeiro exigia uma média do resultado operacional dos três últimos exercícios superior a 300 milhões de kwanzas. Na vertente técnica, o concorrente teria de demonstrar pelo menos duas experiências em serviços de comunicação ligados a matérias fiscais e aduaneiras, em Angola ou no estrangeiro, e apresentar os principais clientes, valores contratuais e declarações abonatórias.

Carla escreveu que a Kianda não teria qualquer possibilidade de vencer se o texto permanecesse assim: “Temos que eliminar aquele ponto 9.” Nas mensagens, são atribuídas ao PCA as respostas “Há espaço para ajustarmos” e “deixa comigo”. Carla agradeceu com um coração.

No dia seguinte, perguntou a Bráulio Assis se houvera “pressão vinda de cima”. A resposta que lhe é atribuída nas mensagens diz que não fora necessário e que os Serviços Administrativos tinham concordado em retirar os obstáculos. Numa comunicação interna reencaminhada a Carla, Bráulio defendia que nem a empresa de comunicação mais forte de Angola cumpriria os requisitos inicialmente propostos.

As versões do procedimento mostram o resultado. O patamar financeiro desceu de 300 milhões para 15 milhões de kwanzas. O mínimo de duas experiências relevantes passou para uma. Caíram, assim, exigências que a própria futura candidata declarara não conseguir satisfazer.

A 17 de Outubro, Carla disse aos sócios que tinha mais de 50 páginas para rever “para se fechar o concurso”, depois de reuniões com Bráulio e com o PCA. Três dias mais tarde, partilhou uma redacção alternativa para o requisito do quadro de pessoal e pediu uma revisão urgente “para ser assinado pelo PCA”.

A versão anterior obrigava os concorrentes a demonstrar um quadro efectivo mínimo de 20 trabalhadores, dos quais 20 por cento com experiência em comunicação ou marketing. O texto enviado por Carla acrescentava uma opção: “ou, em alternativa, demonstrar capacidade de mobilizar os recursos necessários para a prestação de serviços objecto do contrato”. A nova formulação respondia à insuficiência que ela própria identificou.

A 31 de Outubro, Carla já tinha o despacho de abertura, o anúncio, o programa, o caderno de encargos, o ofício destinado à Imprensa Nacional, os termos de referência e o mapa de entregáveis. Faltavam 15 dias para a abertura oficial do concurso. Quando Salvador Pascoal lhe perguntou como preencher um anexo, Carla respondeu: “Quem fez o programa de procedimentos do concurso fomos nós.”

“Game on”

A 11 de Novembro, quatro dias antes do anúncio, Bráulio voltou, segundo Carla, a visitar o casal em Lisboa. Ela escreveu aos sócios: “Ele vai decidir o nosso contrato.”

Dois dias depois, Guilhermina Ivone Tomás Sambongue, funcionária da AGT subordinada a Bráulio, remeteu por correio electrónico as peças definitivas a Carla. Ela partilhou o envio com os sócios e anotou: “Game on”. O edital só seria publicado a 15 de Novembro.

O Concurso Limitado por Prévia Qualificação n.º 347/UCP/DSAdm/AGT/2023 destinava-se à contratação de uma agência para executar o Plano de Comunicação da AGT. A Kianda venceu e assinou, a 22 de Abril de 2024, um contrato de mil milhões de kwanzas, acrescido de IVA. Uma renovação em Julho de 2025 e outra em Maio de 2026, para o terceiro ano contratual, elevaram o encargo acumulado indicado nas adendas para 3,15 mil milhões de kwanzas.

Quando o anúncio se tornou público, a futura vencedora já conhecia as peças, discutira alterações e recebera previamente a versão definitiva. Mas o acesso antecipado foi apenas o início. Na segunda parte desta publicação, o Maka Angola mostra como a Kianda, uma empresa com apenas dois trabalhadores com vínculos activos, se esforçou por apresentar os perfis de vinte trabalhadores, e como o presidente da Comissão de Avaliação surge nas mensagens a orientar, tranquilizar e validar documentos da candidata.

Nota sobre o contraditório: José Leiria, Bráulio Assis e Carla Trindade foram contactados pelo Maka Angola e dispuseram de pelo menos 72 horas para responder. Até ao fecho deste artigo, nenhum deles remeteu directamente ao Maka Angola uma resposta destinada a publicação. Nos termos da lei, o direito de resposta e de rectificação de todos os visados permanece integralmente assegurado.

Fonte: Maka Angola

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