Os novos excluídos e os novos confinamentos

Os novos excluídos e os novos confinamentos
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Temos agora uma oportunidade ímpar de olhar para a distribuição da riqueza de outras perspectivas. Mais equilibradas, mais cristãs, mais fraternas. Mais justas face aos próprios recursos do planeta.

Muitos falavam da necessidade do Mundo procurar novos caminhos, redefinindo modelos sociais, modelos económicos, modelos de utilização dos recursos naturais, entre outros guias para um novo Mundo.

Pelos métodos clássicos, e a conseguir-se alguma mudança de fundo, tudo demoraria décadas e infindáveis cimeiras para que os burocratas mantivessem o controlo da situação, dominando políticos pela dramática ausência de estadistas.

Mas, um dia, chegou o Coronavírus. Ou a Covid-19. Ou, ainda, o SARSCoV-2.

A princípio, só nos apercebemos do receio, do medo, da insegurança.

Depois, fomos todos para casa. Quem pôde.

Outros ficaram desconfinados para tratar, cuidar e, mesmo, amar o próximo que nos entrava pelos hospitais, por vezes já em situações clínicas muito delicadas.

E – num parênteses – não há que ter medo das palavras. Só é possível arriscar a vida a tratar o outro, no caso de uma doença contagiosa, desconhecida e sem terapêutica assertiva, se houver amor. Amor que é a tradução mais fiel de quem vive uma vocação. Porque quem vive apenas uma profissão e não uma vocação também arranjou forma de se confinar.
Mas todos ficaram, e alguns na primeira linha de cuidados, levando para casa, no final do mês, 750 euros. Se isto não é amor ao próximo, nada é Amor.

Mas à medida que os dias passavam e os economistas faziam cálculos confinados, fomos percebendo, a par, que o pior não iria acabar com o fim da pandemia. O pior continuaria a confinar as nossas vidas pessoais de receios, dúvidas e prenunciando um mundo que vai mudar. E não aceitar essa mudança produzirá os novos excluídos.

Mudanças nas interdependências económicas. Mudanças na circulação de pessoas, mudanças na circulação de fluxos de capital, porque as economias serão menos permissivas porque menos interdependentes na abrangência global dos mercados.

Mudanças na utilização dos recursos naturais porque vamos usar muito mais os nossos próprios recursos do que usaremos, indiscriminadamente, os recursos dos outros. Mudanças na concepção dos modelos de larga escala em logística.

Mudanças porque, por fim, percebemos que as reservas estratégicas de material sanitário, ou outro, fazem parte da noção de segurança nacional. O que levará a uma redefinição da partilha das capacidades de produção entre espaços de alianças e não entre espaços económicos.

Tudo parece tão simples, dito assim. Mas tudo junto mudará as nossas vidas como as conhecemos.

Tudo junto promete uma revolução mais profunda do que a revolução industrial.

Vamos aprender a viver em espaços estratégicos diferentes e bem mais contidos na sua extensão. O Mundo pós-coronavírus é um mundo que vai descobrir novos confinamentos. Onde a confiança entre entidades geopolíticas voltará a ser crucial. Mas onde teremos, também, que perceber que o modelo bilateral é tão relevante quanto o modelo multilateral. Principalmente para as pequenas economias.

O paradoxo de tudo isto, é que teremos agora uma oportunidade ímpar, nos tempos modernos, de olhar para a distribuição da riqueza de outras perspectivas. Mais equilibradas. Mais interdependentes, mas com localização restrita. Mais solidárias. Mais cristãs. Mais fraternas. Mais justas face aos próprios recursos do planeta.

A flexibilização, ou a reconversão acelerada, da capacidade produtiva de cada empresa será uma das grandes heranças do coronavírus. E daí virá sucesso, sustentabilidade e a inovação.

Muitos pensaram e, quiçá, no seu íntimo ainda pensam, que o coronavírus é mais uma gripe, um pouco mais complexa, mas uma gripe. E que após cada Inverno o mundo continua igual ao Verão anterior. E assim será desta vez.

Pode ser! Mas pode ser, também, o fim de quem não perceber que algo de novo começou nas nossas vidas pessoais e colectivas. E esses serão os novos excluídos. Os novos sem-abrigo. Os novos confinados de um tempo que pensam estático.

Esperemos que a maioria pense, agora, que o mundo não pode voltar a ser tão frágil perante um vírus. Tão dependente de um mesmo fornecedor longínquo. Tão dependente de multinacionais que gerem os seus stocks sem terem em conta o equilíbrio de capacidades de resposta entre nações vizinhas. E, pensem ainda, que os recursos do planeta têm limites.

Que os idosos não podem viver os últimos anos das suas vidas em situações tão frágeis. Pois, em princípio, todos nós lá chegaremos e, então, veremos como é. Se nada mudar pela nossa iniciativa. Eu, nos hospitais, vejo todos os dias como é.

Deslocalizar produção para espaços geopolíticos desalinhados deixará de ser uma estratégia de sobrevivência ou de competitividade empresarial. O preço a pagar é demasiado alto e a dependência de regimes não compensa no futuro que talvez aí venha. Mas ganhar esta consciência, específica, vai demorar.

Tudo isto fará desacelerar o crescimento económico mundial? Sim, mas íamos lá chegar por questões ambientais!

Fará aumentar as tensões? Sim, mas não na escala em que pensamos!

Criará mundos assimétricos? Sim, mas menos dramáticos do que os actuais!

Vai obrigar-nos a viver com menos abundância? Sim! Mas as mesmas questões ambientais iriam levar o mundo a essa menor abundância.

E o emprego? Dentro de alguns anos, poucos, não será dramático na Europa. Mas pode ser, ainda, noutras partes do Mundo.

O Mundo pós-coronavírus vai fazer-nos olhar para os nossos espaços vitais, valorizando-os como há muito não fazemos. Vai voltar a fazer-nos valorizar vizinhos em detrimento de outros vizinhos. Vai obrigar a restabelecer prioridades políticas em torno dos nossos valores e, assim, retornar à matriz histórica de cada realidade geográfica. Se assim não for, não aprendemos nada com esta pandemia e o Mundo não será nem mais seguro nem mais fraterno.

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