O “vírus” de Isabel dos Santos

Moedas digitais: dinheiro bom ou dinheiro mau?
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Face ao preocupante rumo dos acontecimentos, deveríamos começar a interrogarmo-nos se queremos ser confinados, financeira e politicamente, por uma espécie de dinheiro que entrará telemóveis adentro.

A notícia de que a empresária Isabel dos Santos tentou que o seu salário fosse pago em dinheiro vivo, supostamente para contornar o arresto de bens a que está sujeita em Portugal e em Angola, surge numa altura em que se vai anunciando o fim do dinheiro físico. Como também tem vindo a ser noticiado, vários países irão lançar as suas próprias moedas digitais, seguindo o exemplo da China. Na Europa, estas novas moedas também estarão já na forja.

À primeira vista, certas condutas criminosas parecem justificar, por si só, que a sociedade troque o dinheiro em espécie por uma nova espécie de dinheiro… No entanto, estará a passar despercebido o simples facto de que hoje é muito fácil efetuar o cruzamento de dados e informações sobre as pessoas, pelo que a substituição do dinheiro físico por moedas digitais não deve ser encarada como um remédio santo, destinado a evitar casos de polícia como o de Isabel dos Santos, mas sim como um forte sinal da “pandemia” político-económica que começa a afetar a privacidade e a liberdade dos cidadãos.

Na verdade, as moedas digitais estatais centralizadas permitirão aos governos monitorizar o comportamento dos consumidores, viabilizando a discriminação do consumo de todos os cidadãos e a eventual anulação de pagamentos realizados por qualquer “persona non grata”. Com estas novas moedas, o dinheiro deixará de ser todo igual e passará a ser politicamente correto.

Não confundamos as moedas digitais com a versão eletrónica do dinheiro, que ainda vamos movimentando com os nossos cartões bancários. As novas moedas digitais, de que agora falamos, correspondem a um tipo de dinheiro muito diferente. Sendo verdadeiramente programáveis, elas permitem estipular, caso a caso, os contornos particulares das todas as transações realizadas.

Estamos, pois, perante uma mudança na natureza do dinheiro, que aumentará a granularidade da alçada política e da ação governativa sobre os cidadãos, que não podem dispensar o estatuto de consumidores… Ora, sendo verdade que os eleitores vão estando sensibilizados para a necessidade de se retirar o dinheiro da política, não lhes estarão a ser devidamente explicadas as razões porque é imprescindível retirar a política do dinheiro no dealbar do século XXI.

É sabido que as crises profundas têm aberto caminho a grandes mudanças. Infelizmente, estas mudanças nem sempre têm sido para melhor. Na verdade, é precisamente nas épocas mais conturbadas que é possível convencer pessoas quanto baste a trocarem a liberdade por promessas de segurança. Assim, face ao preocupante rumo dos acontecimentos, deveríamos começar a interrogarmo-nos se queremos ser confinados, financeira e politicamente, por uma espécie de dinheiro que entrará telemóveis adentro sem nos pedir licença.

Pretendendo defender a democracia e a liberdade, convém perceber, atempadamente, que as versões centralizadas das moedas digitais vão servir para facilitar a submissão dos cidadãos ao poder político, podendo mesmo catalisar o recrudescimento global de um terrorismo de Estado à boa maneira da Alemanha Nazi ou do Soviete Supremo, cujas fórmulas alguns de nós saberão recordar, mas que outros desconhecem até mesmo dos museus.

Nestes “loucos anos 20”, tentarão fazer-nos esquecer o dinheiro físico, bem como levar-nos a desconfiar de quaisquer moedas digitais descentralizadas que ofereçam um grau de liberdade semelhante ao proporcionado pelo dinheiro vivo. Para que os consumidores não exijam manter a propriedade de “chaves privadas” e impedi-los de protegerem os dados pessoais e a sua privacidade, será prometida a todos os cidadãos a erradicação dos referidos casos de polícia. Uma vez convencidos de que a descentralização digital propaga o “vírus” letal da criminalidade, aceitaremos a proibição de toda e qualquer moeda digital que não seja patrocinada pelo Estado, bem como a conveniente extinção do também contagioso dinheiro em espécie. Desta forma, seremos levados a abdicar da nossa liberdade, passando a dispor, única e exclusivamente, de moedas digitais centralizadas no Estado.

Só numa grave crise, como esta que agora vamos atravessar, seria possível levar as pessoas a aceitarem moedas digitais programadas em função de interesses centralizados, sendo que, para ficarmos expostos à virulência de tais “senhas de racionamento”, basta que nos seja vedada o acesso à “imunidade de grupo” transmitida por chaves privadas e pela descentralização digital. As moedas digitais descentralizadas correspondem à única versão de dinheiro digital que pode emular a força criadora do “dinheiro vivo”, tendo a capacidade de dinamizar a iniciativa privada e a inovação, nomeadamente incentivando as forças vivas da sociedade (missão essa, impossível para um Estado castrador).

O grande risco é que nos deixemos abater pela crise e pelo medo, tornando-nos “hipocondríacos” que acreditam na “virulência” de certos casos de polícia e na panaceia das referidas “senhas de racionamento”.

 

Fontes: observador

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