Carrinho perde exclusividade e sem experiência Tulumba entra em força na logística das FAA

A perda da exclusividade do Grupo Carrinho no abastecimento alimentar das Forças Armadas Angolanas (FAA) marca uma inflexão relevante num dos contratos mais sensíveis do Estado angolano. A reestruturação abriu espaço à entrada do grupo empresarial ligado a Silvestre Tulumba, alterando o modelo que vigorava desde 2023.

Desde que assumiu a gestão da Reserva Estratégica Alimentar (REA), em 2023, o Grupo Carrinho acumulava também o contrato exclusivo de abastecimento das FAA. Durante esse período, vieram a público denúncias internas sobre alegadas falhas crónicas no fornecimento alimentar às tropas.

Em Janeiro deste ano, o Executivo decidiu pôr fim à exclusividade. O fornecimento passou a ser partilhado com a ATL-Alfa – Transporte e Logística, Lda., empresa ligada ao grupo de Silvestre Tulumba e criada apenas cinco meses antes de assegurar o contrato.

Apesar de perder o monopólio nas FAA, o Grupo Carrinho mantém forte presença na logística institucional, controlando cerca de 70% do abastecimento do Ministério do Interior e do Comando-Geral da Polícia Nacional, segundo informações divulgadas por investigações jornalísticas.

Já no final de 2025, o grupo A.S. Tulumba – Investimentos e Participações, Lda. foi formalmente integrado no pacote logístico das FAA, através de adjudicação directa — mecanismo legal previsto, mas frequentemente alvo de debate público quando aplicado em sectores estratégicos.

Fontes do sector indicam que, embora o grupo de Tulumba possua unidades de empacotamento, não é conhecida experiência consolidada na produção e distribuição alimentar em larga escala, particularmente num contexto de elevada complexidade logística como o das Forças Armadas.

Especialistas sublinham que contratos desta natureza exigem cadeia integrada, capacidade de armazenamento, transporte contínuo e previsibilidade operacional, factores considerados críticos para evitar ruturas no abastecimento.

Até ao momento, não foi apresentada uma explicação pública detalhada sobre os critérios técnicos que sustentaram a escolha do novo operador.

Fontes empresariais referem que Silvestre Tulumba mantém proximidade com círculos centrais do poder político, incluindo com o Presidente da República, João Lourenço. Embora essa proximidade não configure ilegalidade, analistas consideram que a sucessão de contratos estratégicos atribuídos por adjudicação directa a empresários ligados ao poder político alimenta um debate recorrente em Angola.

Na sociedade civil, académicos e economistas têm criticado o modelo de concentração de negócios públicos em grupos próximos do poder, argumentando que tal prática pode limitar a concorrência, reduzir a transparência e fragilizar a confiança no mercado.

Paralelamente à entrada na logística militar, o grupo de Tulumba foi beneficiado com financiamento directo do Fundo Soberano de Angola (FSDEA).

A operação é considerada atípica por alguns observadores, uma vez que este tipo de financiamento é geralmente reservado a projectos com elevado grau de maturidade técnica e impacto estruturante claramente definido. Até ao momento, não foram tornados públicos os detalhes técnicos do projecto apoiado nem os critérios específicos que fundamentaram a decisão.

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