O jornalista de investigação Rafael Marques considera que o Presidente João Lourenço transformou a governação de Angola num exercício de concentração de poder, sustentado pelo silêncio e pela cumplicidade das instituições. Numa análise intitulada “A Cabeça de Lourenço”, o jornalista critica também a oposição, questiona as ambições políticas de Higino Carneiro e alerta para os desafios que o actual Chefe de Estado poderá enfrentar quando abandonar a Presidência da República.
Rafael Marques sustenta que Angola vive uma situação em que as principais decisões políticas e económicas dependem da vontade de um único homem, apesar da existência de instituições que deveriam assegurar o equilíbrio de poderes.
Na sua opinião, João Lourenço não conseguiu transformar o combate à corrupção numa prática de governação capaz de restaurar a confiança dos cidadãos, melhorar os serviços públicos e garantir uma distribuição mais justa dos recursos nacionais.
O jornalista destaca um estudo de Olívio Quilumbo e Hélder Preza, segundo o qual o Presidente autorizou mais de 61,5 mil milhões de dólares em contratações simplificadas, questionando a fundamentação legal das adjudicações realizadas sem concurso público.
Higino Carneiro e a oposição também são criticados
Rafael Marques não poupa Higino Carneiro, cuja candidatura à liderança do MPLA foi considerada inválida pelos órgãos do partido.
Para o jornalista, o general representa o exemplo de dirigentes que apenas questionam o funcionamento do sistema quando perdem influência política.
A UNITA e os restantes partidos da oposição também são visados. Rafael Marques considera que as ambições pessoais dos dirigentes continuam a sobrepor-se à construção de alternativas políticas centradas nas necessidades dos cidadãos.
Educação e conformismo preocupam
O autor denuncia igualmente a degradação dos serviços públicos, particularmente na educação e na saúde, responsabilizando tanto a governação como a falta de mobilização colectiva da sociedade.
Recorda dados apresentados pelo Ministério da Educação em 2023, segundo os quais 89% das escolas públicas abrangidas por um levantamento não tinham cabimentação orçamental, enquanto seis em cada dez não dispunham de acesso à água.
Jornalista questiona futuro político de Lourenço
Na parte final da análise, Rafael Marques questiona a possibilidade de João Lourenço continuar a dirigir o MPLA depois de abandonar a Presidência da República.
O jornalista recorda que o próprio Lourenço rejeitou a tutela política de José Eduardo dos Santos quando assumiu o poder, considerando contraditória uma eventual tentativa de impor ao futuro Presidente uma situação semelhante.
Rafael Marques defende que João Lourenço precisa de preparar uma saída política pacífica, mas considera que o maior desafio permanece nas mãos dos angolanos: superar o conformismo e organizar-se para exigir instituições que sirvam o interesse colectivo.
A análise termina com uma interrogação sobre o futuro pessoal e político do Chefe de Estado, incluindo a possibilidade de permanecer no comando do MPLA após deixar a Presidência.





