Angola ambiciona liderar a FAO, mas enfrenta graves problemas na agricultura

Enquanto o Governo mobiliza apoios internacionais para colocar uma angolana à frente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o sector agrícola nacional continua marcado pela baixa mecanização, dificuldades de financiamento, perdas de produção e elevados níveis de insegurança alimentar.

Angola pretende assumir a liderança mundial da principal agência das Nações Unidas dedicada à alimentação e à agricultura, mas enfrenta internamente dificuldades estruturais que contrastam com a ambição diplomática. A candidatura da engenheira agrónoma Josefa Sacko à direcção-geral da FAO, para o mandato 2027-2031, surge num momento em que milhões de agricultores angolanos continuam a trabalhar com instrumentos rudimentares e grande parte das terras disponíveis permanece por explorar.

A candidatura, apoiada pela União Africana e pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), apresenta a inovação tecnológica, a modernização agrícola e o fortalecimento dos pequenos produtores como prioridades. Contudo, um levantamento publicado pelo Novo Jornal, na edição de 23 de Outubro, revela que o país enfrenta dificuldades precisamente nos domínios que pretende promover internacionalmente.

Segundo a publicação, cerca de 6,4 milhões de pessoas trabalham na agricultura, distribuídas por mais de três milhões de explorações agrícolas. A agricultura familiar, responsável por aproximadamente 90% da produção nacional, continua fortemente dependente das chuvas, com acesso limitado à mecanização, aos sistemas de irrigação, ao crédito e aos meios de produção.

Outro problema é o desperdício alimentar. De acordo com informações citadas pelo semanário, mais de 40% da produção agrícola poderá perder-se nos campos devido às dificuldades de escoamento, situação agravada pela degradação das estradas e pela insuficiência de unidades de transformação e conservação de alimentos.

Em Benguela, produtores queixam-se de dificuldades para colocar os seus produtos no mercado. O empresário agrícola Vitorino Sousa Marques, citado pelo Novo Jornal, relata situações de excesso de produção de frutas, como banana, manga e abacaxi, que acabam por se deteriorar antes de chegar aos consumidores.

Milhões de hectares disponíveis, mas a fome persiste

O contraste torna-se mais evidente quando se observa o potencial agrícola nacional. Dos cerca de 35 milhões de hectares de terras aráveis existentes em Angola, apenas 6,2 milhões, equivalentes a aproximadamente 17,7%, são explorados, segundo os dados apresentados pelo jornal.

Ao mesmo tempo, Angola continua a apresentar indicadores preocupantes de insegurança alimentar. No Índice Global da Fome de 2025, o país ocupou a 111.ª posição entre 123 países avaliados, com uma pontuação de 29,7, correspondente a um nível de fome considerado grave.

O mesmo relatório estima que 22,5% da população angolana sofre de subalimentação, enquanto 47,7% das crianças menores de cinco anos apresentam atraso de crescimento associado à desnutrição crónica.

Estes indicadores expõem a distância entre o potencial agrícola do país e a capacidade efectiva de garantir alimentação adequada à população.

Ambição internacional exige resultados internos

A candidatura de Josefa Sacko constitui uma oportunidade para Angola reforçar a sua influência nas políticas agrícolas internacionais. A diplomata possui experiência em instituições africanas ligadas à agricultura e ao desenvolvimento rural, percurso que sustenta a sua pretensão de dirigir a FAO.

Entretanto, o desafio ultrapassa as credenciais da candidata. O país que pretende contribuir para a definição das políticas mundiais de combate à fome enfrenta dificuldades persistentes para modernizar a própria agricultura, apoiar os pequenos produtores e reduzir a insegurança alimentar.

A contradição não retira legitimidade à candidatura angolana, mas levanta uma questão essencial: como poderá Angola transformar a ambição de liderança internacional em resultados concretos para os agricultores que, dentro das suas fronteiras, continuam a produzir com enxadas e catanas?

O verdadeiro teste à ambição do país não estará apenas na eleição de Josefa Sacko, em 2027, mas também na capacidade de transformar o potencial agrícola nacional em mais produção, menos desperdício e maior segurança alimentar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *