O Insustentável Declínio da Sonangol: lucros escondem fragilidade estrutural

A Sonangol, símbolo histórico da economia angolana, enfrenta um dos períodos mais delicados da sua existência. Apesar de apresentar lucros elevados em 2025, os números revelam uma realidade preocupante: a petrolífera estatal já não depende principalmente da exploração de petróleo para garantir rentabilidade, mas sim de dividendos provenientes de participações externas.

Segundo análise publicada por Rui Verde no portal Maka Angola, mais de metade dos proveitos da empresa em 2025 — cerca de 53% — teve origem em activos como a Angola LNG, o Millennium BCP e a Galp, e não na actividade petrolífera tradicional. A Angola LNG terá gerado 314 mil milhões de kwanzas em dividendos, enquanto o BCP contribuiu com 91,5 mil milhões e a Galp com 53,8 mil milhões.

O autor considera que esta dependência evidencia uma fragilidade estrutural da empresa, cuja actividade principal perdeu capacidade de gerar lucros consistentes. Embora a exploração e produção tenham movimentado cerca de quatro biliões de kwanzas em negócios, o lucro líquido deste segmento ficou limitado a 97,1 mil milhões de kwanzas, pressionado por elevados custos operacionais, amortizações e carga fiscal.

Ao mesmo tempo, áreas como a refinação e distribuição continuam a acumular prejuízos significativos. Em 2025, o sector registou perdas avaliadas em 820,3 mil milhões de kwanzas. Também os negócios não nucleares da Sonangol — que incluem dezenas de participações empresariais, desde a Clínica Girassol até à Sonair — terão acumulado prejuízos superiores a 707 mil milhões de kwanzas nos últimos cinco anos.

Rui Verde sustenta que os problemas da Sonangol não são recentes. Desde 2015, diferentes alertas apontavam para uma gestão marcada por opacidade, clientelismo e baixa eficiência. Apesar das sucessivas mudanças de liderança e dos programas de reestruturação implementados ao longo da última década, a empresa não conseguiu recuperar a robustez operacional nem adaptar-se às exigências do mercado petrolífero internacional.

O parecer do Conselho Fiscal da Sonangol reforça as preocupações. O órgão alerta para a pressão sobre a liquidez da empresa, cuja cobertura de caixa cobre apenas 18% das necessidades imediatas. O documento recomenda ainda aceleração do programa de privatizações (ProPriv), renegociação de empréstimos, recuperação de dívidas e redimensionamento da força de trabalho.

Para Rui Verde, a ausência de reformas profundas e de abertura ao capital privado internacional compromete o futuro da petrolífera estatal e da própria economia angolana. O analista defende que, sem modernização, transparência e redefinição estratégica, a Sonangol poderá tornar-se insustentável a médio prazo.

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