Jornalista Teixeira Cândido vítima de espionagem com recurso a spyware no telemóvel

O ataque a Teixeira Cândido deverá inserir-se numa “campanha mais alargada de spyware” em Angola, segundo a Amnistia Internacional.

Jornalista angolano vítima de espionagem com recurso a spyware no telemóvel Teixeira Cândido, jornalista, activista e ex-secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos foi alvo de um ataque de espionagem através de software — um spyware — que infectou o seu telemóvel em Maio de 2024. A Amnistia Internacional, que divulgou nesta quarta-feira um relatório sobre a utilização deste spyware em Angola, considera o ataque como “uma grave violação dos direitos à privacidade e de liberdade de expressão” que inibe o trabalho jornalístico.

Jornalista angolano vítima de espionagem com recurso a spyware no telemóvel
O caso de Teixeira Cândido emergiu de uma investigação levada a cabo pelas organizações Friends of Angola e Front Line Defenders sobre as ameaças colocadas pela vigilância em Angola em 2025, um tema que tem alarmado vários movimentos de defesa dos direitos humanos.

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A Amnistia Internacional, numa nova investigação, identificou que o spyware utilizado para vigiar o jornalista angolano terá sido o Predator, um software de vigilância da empresa Intellexa. A empresa — fundada por Tal Dilian, um ex-militar israelita — foi já alvo de denúncias públicas, investigações criminais e sanções — incluindo a Intellexa Leaks e a Predator Files —, mas continua a servir práticas de vigilância ilegal.

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O Predator infectou o telemóvel de Teixeira Cândido, no dia 4 de Maio de 2024, através de um clique num link enviado através da aplicação de mensagens WhatsApp por um contacto desconhecido, mas que dizia ser um estudante angolano interessado na opinião do jornalista para um projecto. A partir daí, o atacante teve acesso ilimitado ao telemóvel do à altura secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, incluindo a mensagens, gravações de áudio, emails, senhas guardadas, entre outros. Nas semanas seguintes, mais links maliciosos foram recebidos, mas o telemóvel escapou a uma nova infecção, possivelmente por não terem sido abertos.

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“Sinto-me nu ao saber que fui alvo desta invasão da minha privacidade. Não sei o que possuem sobre a minha vida. […] Agora só faço e digo o essencial. Não confio nos meus dispositivos. Troco correspondência, mas não trato de assuntos íntimos nos meus dispositivos. Estou muito limitado”, admitiu Teixeira Cândido, segundo a Amnistia Internacional.

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A Amnistia Internacional não atribuiu a ninguém a origem dos ataques, mas Teixeira Cândido tem como prioridade “descobrir quais são as entidades que adquiriram essas ferramentas de spyware”, disse à organização não-governamental Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ). Em declarações à Lusa, o jornalista sublinhou que a Intellexa não vende o software a privados, levantando suspeitas sobre o Governo angolano. Caso a suspeita se confirme, frisa que tal configura um “abuso de poder” e que apresentará uma participação junto do Departamento Nacional de Investigação e Acção Penal.

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Teixeira Cândido tem sido alvo de vários ataques e intimidações desde 2022, ano de eleições em Angola, incluindo repetidos assaltos à sede do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. Foi por essa altura que se levantaram mais preocupações sobre a vigilância digital. “Eles roubaram apenas computadores e não estavam interessados em mais nada. […] Fez-nos perceber o interesse nos nossos documentos e contactos, e seria natural que também estivessem interessados nos nossos telemóveis”, disse ao CPJ.

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Os investigadores da Amnistia Internacional acreditam que este caso provavelmente se insere numa “campanha mais alargada de spyware no país, e que o Predator tem sido usado para visar indivíduos em Angola pelo menos desde 2023.

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A organização refere ainda que “este tipo de spyware altamente invasivo é totalmente incompatível com os direitos humanos”, e alerta para os perigos que apresenta para o jornalismo, inibindo a capacidade de os jornalistas fazerem o seu trabalho.

Fonte: Público

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