A recente investigação aberta pela Financial Crimes Commission (FCC) das Maurícias contra o empresário malgaxe Maminiaina “Mamy” Ravatomanga reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade do centro financeiro mauriciano — e trouxe de volta à memória escândalos passados que envolveram figuras de destaque de Angola.
Segundo informações divulgadas pelo jornal L’Express, Ravatomanga, dono de um império empresarial que inclui negócios imobiliários e comerciais, teria chegado as Maurícias a bordo de um jato particular na noite de 11 para 12 de outubro. Ele é suspeito de movimentar centenas de milhões de dólares em contas bancárias mauricianas. A FCC agora investiga a origem e a rastreabilidade desses recursos, após uma denúncia apresentada por uma cidadã malgaxe.
Embora o caso Ravatomanga ainda esteja em fase inicial, ele reacendeu preocupações antigas sobre o papel das Maurícias como plataforma para fluxos financeiros de alto risco vindos da África e da Ásia — especialmente à luz de escândalos anteriores envolvendo bilionários angolanos.
Os casos angolanos que abalaram Port Louis
Em 2018, o nome do bilionário Álvaro Sobrinho, ex-presidente do Banco Espírito Santo Angola (BESA), provocou uma verdadeira crise reputacional para o centro financeiro mauriciano. Acusado de desvio de fundos e gestão fraudulenta, Sobrinho teria canalizado investimentos para o país através de várias empresas registradas sob o regime das Global Business Companies (GBC).
As autoridades mauricianas enfrentaram duras críticas depois que vieram a público informações sobre doações e favores concedidos a personalidades locais — incluindo altos funcionários, dirigentes de instituições independentes e intermediários privados. Entre os supostos benefícios oferecidos estavam automóveis de luxo, apartamentos e presentes caros, o que gerou um escândalo político e institucional de grandes proporções.
Pouco tempo antes, outro empresário angolano já havia colocado Maurícias sob escrutínio internacional: Jean-Claude Bastos de Morais, gestor de investimentos e na altura associado do Fundo Soberano de Angola (FSDEA). Os investimentos de Bastos de Morais em estruturas financeiras mauricianas atraíram a atenção de autoridades internacionais, que suspeitavam de operações complexas de transferência de capitais por meio de empresas sediadas em Port Louis.
Esses episódios consolidaram uma imagem controversa das Maurícias — vista por muitos analistas como uma ponte entre legalidade e opacidade financeira.
Risco de repetição
Agora, o caso Ravatomanga surge como um novo teste de credibilidade para as autoridades mauricianas, que vêm tentando restaurar a imagem do país desde 2020, quando foi incluído nas listas cinzentas e negras do Financial Action Task Force (FATF) e da União Europeia.
Após uma série de reformas regulatórias, Maurícias conseguiu sair dessas listas em 2022. No entanto, especialistas alertam que basta um único caso de grande repercussão para minar anos de esforços diplomáticos e institucionais.
O país, que depende fortemente do setor financeiro internacional — responsável por cerca de 13% do PIB —, tenta equilibrar a atração de investimentos com o cumprimento de normas globais de transparência.
Desafio para as autoridades
A FCC agora enfrenta o desafio de conduzir a investigação de forma transparente e independente, evitando qualquer percepção de complacência política. Caso contrário, advertiram analistas, Maurício poderá reviver o mesmo desgaste vivido nos casos Sobrinho e Bastos de Morais, com potenciais impactos em sua posição como um dos principais centros financeiros da África.
Com a próxima revisão do ESAAMLG (Grupo Antilavagem da África Oriental e Austral) marcada para 2027, a pressão sobre Port Louis aumenta. O resultado dessa e de outras investigações poderá definir se Maurícias conseguirá manter sua reputação — ou se voltará a ser visto como um refúgio conveniente para fortunas de origem controversa.
Com informações de L’Express (Maurícias)






