Veterano da CIA influenciou governo do Presidente João Lourenço a ser brando com Jean-Claude Bastos de Morais

Novas revelações sobre os bastidores do lobbying em Washington estão a levantar sérias questões sobre a influência de um antigo agente dos serviços secretos norte-americano e de consultores próximos da administração Trump em investigações de corrupção em África.

De acordo com documentos apresentados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos e reportagens especializadas, o veterano agente da CIA Dale Britt Bendler, condenado em abril por manuseamento indevido de informação confidencial e por atuar como agente estrangeiro não registado, trabalhou secretamente para o grupo de lobbying BGR Government Affairs, sediado em Washington, para proteger empresários implicados no escândalo do Fundo Soberano de Angola (FSDEA).

A ponte entre Langley e K Street

Bendler, que serviu mais de três décadas na CIA e chefiou a estação em Paris entre 2011 e 2014, foi recontratado pela agência como consultor entre 2014 e 2020. Durante esse período, segundo os procuradores federais, usou os sistemas confidenciais da CIA “como o seu próprio Google pessoal” para obter informações sobre clientes privados.

Os documentos judiciais e o registo oficial no Foreign Agents Registration Act (FARA) indicam que Bendler foi contratado pela BGR Group, um dos maiores grupos de lobbying de Washington, para representar os interesses de Jean-Claude Bastos de Morais, empresário suíço-angolano e fundador da Quantum Global, empresa que geriu milhares de milhões de dólares do FSDEA.

A ligação entre Bendler e Bastos de Morais remonta a 2017, ano em que o empresário foi acusado, juntamente com José Filomeno “Zenú” dos Santos, filho do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, de desviar fundos públicos do Fundo Soberano.

Segundo depoimentos e comunicações internas, Bendler foi contratado para fazer lobby junto do novo Presidente João Lourenço, que assumira o poder em setembro de 2017, com o objetivo de evitar a exclusão de Bastos de Morais da gestão do FSDEA.

“BGR e eu tentámos persuadir o governo de Angola a ser brando com ele”, reconheceu Bendler num documento de registo FARA. Pouco depois, a Quantum Global foi afastada da gestão do fundo, e Bastos de Morais acabou detido por seis meses sob acusações de peculato. As acusações seriam retiradas em 2019, após um acordo extrajudicial com o governo angolano.

Zenú dos Santos foi posteriormente condenado por peculato e tráfico de influência, recebendo uma pena de cinco anos, anulada mais tarde pelo Tribunal Constitucional em 2024.

Rede de poder em Washington

O caso Bendler expôs a teia de conexões entre a BGR e a órbita de Donald Trump.
A empresa, uma das mais influentes firmas de lobbying nos Estados Unidos, mantém laços estreitos com ex-membros da administração Trump. O seu diretor-geral, David Urban, foi conselheiro da campanha presidencial de 2016 e é considerado um dos mais poderosos estrategas republicanos na capital.

Outro nome ligado ao grupo é Sean Duffy, ex-congressista e ex-apresentador de televisão, que trabalhou como lobista e membro do conselho consultivo da BGR antes de se juntar à equipa de Trump em 2024.

Segundo registos recentes, a proximidade da BGR à administração Trump facilitou a assinatura de contratos milionários com governos africanos — incluindo um acordo de 170 mil dólares mensais com Angola e outro com a Somália.

Essas ligações levantam novas dúvidas sobre a responsabilidade das firmas de lobbying que empregam antigos agentes de inteligência, e sobre a transparência das suas operações em nome de governos e empresários estrangeiros.

O “caso Bendler” como alerta

Em abril, Bendler declarou-se culpado perante um tribunal federal norte-americano por atuar como agente estrangeiro enquanto ainda mantinha acesso a sistemas classificados da CIA. O Departamento de Justiça descreveu o caso como “um abuso flagrante de confiança pública e de segurança nacional”.

Fontes do Congresso norte-americano pedem agora uma revisão da legislação sobre conflitos de interesse em atividades de lobbying e inteligência.

“Quando um ex-oficial da CIA usa o seu conhecimento e os seus contactos para proteger suspeitos de corrupção estrangeira, a segurança nacional e a integridade da política externa dos EUA ficam comprometidas”, afirmou um antigo procurador federal ao Washington Examiner.

Enquanto isso, a BGR — que continua ativa em Angola — nega qualquer irregularidade, afirmando que todos os seus contratos internacionais cumprem integralmente a lei norte-americana.

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